O perigo do não sentir e o uso indiscriminado de ansiolíticos

O perigo do não sentir e o uso indiscriminado de ansiolíticos
Daniela Hernandez de Barros
Nos últimos anos, observa-se um aumento preocupante no consumo de ansiolíticos no Brasil e no mundo. De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o país já figura entre os maiores consumidores de medicamentos dessa classe, o que levanta um alerta não apenas para médicos, mas também para psicólogos e outros profissionais de saúde mental.

Embora os ansiolíticos desempenhem um papel fundamental no tratamento de transtornos de ansiedade, fobias e crises agudas, seu uso excessivo — e muitas vezes sem acompanhamento psicológico adequado — tem gerado um fenômeno silencioso: o “não sentir”.

Quando o alívio se torna anestesia emocional

O ser humano é, por natureza, um ser emocional. Medo, tristeza, ansiedade e até mesmo angústia fazem parte de um repertório natural de respostas diante da vida. Esses sentimentos, embora desconfortáveis, funcionam como sinais de que algo precisa ser olhado, compreendido e, muitas vezes, transformado.

O uso indiscriminado de ansiolíticos, porém, pode amortecer essas sensações a ponto de impedir que a pessoa reconheça e elabore seus conflitos internos. A consequência? Problemas emocionais mascarados, que permanecem latentes e tendem a se agravar com o tempo.

A cultura do “sentir menos”

A sociedade contemporânea valoriza a produtividade, a performance e a aparência de estabilidade emocional. Nesse cenário, sentir demais — especialmente sentimentos considerados “negativos” — é frequentemente visto como fraqueza. A solução rápida e farmacológica torna-se tentadora, mas perigosa.

O risco é criar uma geração menos tolerante ao desconforto e mais dependente de recursos externos para lidar com a vida, reduzindo a capacidade de resiliência emocional e de autoconhecimento.

O papel da Psicologia no resgate do sentir

A Psicologia defende que emoções não devem ser eliminadas, mas compreendidas e integradas. O acompanhamento terapêutico, quando combinado ao tratamento medicamentoso (quando necessário), possibilita que o paciente não apenas controle sintomas, mas também desenvolva ferramentas internas para lidar com eles.

O trabalho conjunto entre psiquiatras e psicólogos é essencial para que o medicamento seja um apoio temporário e não um substituto da vivência emocional.

O equilíbrio necessário

O perigo não está no uso de ansiolíticos em si, mas no uso sem critério e no afastamento das experiências humanas que moldam nossa identidade. Sentir é parte de estar vivo — inclusive aquilo que não é agradável.

A verdadeira saúde mental não significa ausência de sofrimento, e sim a capacidade de atravessar momentos difíceis com consciência, apoio e recursos internos fortalecidos.

Daniela Hernandez de Barros, Psicóloga (CRP 15/3726) e Jornalista (MTB 2027/AL). Formada pelo Centro Universitário CESMAC; Especialista em Urgência, Emergência e Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) pela UNIT; Capacitação em Psicologia Jurídica e Processos Psicológicos Criminais, Capacitação em Avaliação Psicológica, Capacitação em Psicologia Breve.
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