A crise de identidade na sociedade líquida sob uma lente psicanalítica
Shirley Jaires
Vivemos uma época marcada por transformações aceleradas e constantes, em que tudo
parece escorregar pelas mãos. Nada parece durar: relacionamentos, profissões, estilos de
vida — tudo é passageiro. Neste contexto volátil, torna-se cada vez mais difícil sustentar
uma noção clara de quem se é.
A sensação é de que precisamos estar sempre nos atualizando, inclusive emocionalmente.
Essa instabilidade, mais do que um fenômeno social, toca o coração da existência humana.
Ela abala a forma como nos reconhecemos e nos constituímos como sujeitos. Afinal, como
sustentar um senso de si quando o mundo exige constante reinvenção?
O sociólogo Zygmunt Bauman chamou esse tempo de modernidade líquida: uma
realidade onde nada é duradouro — nem os compromissos, nem os valores, nem os
próprios vínculos afetivos. As estruturas sólidas do passado, como família tradicional,
religião ou um emprego para a vida toda, perderam seu papel de sustentação.
Em seu lugar, temos conexões rápidas, decisões sob pressão e a constante sensação de
que tudo é provisório. É o chamado mundo VUCA — volátil, incerto, complexo e ambíguo.
Nele, não há muito espaço para pausas ou certezas. E isso tem um custo psíquico:
ansiedade, insegurança, crises de identidade e um mal-estar difuso que atravessa
toda uma geração.
E o que Freud tem a ver com isso?
Para Freud, o sujeito não nasce pronto. A nossa identidade é construída, pouco a pouco,
nas trocas com o outro, desde os primeiros cuidados, a linguagem, os afetos e os limites
que nos moldam. Mas esse “eu” nunca é inteiramente firme ou coerente. Ele é atravessado
por desejos inconscientes, por conflitos internos e contradições que fazem parte da
natureza humana.
Ou seja, mesmo em tempos estáveis, a identidade já é uma construção delicada. Num
mundo líquido, essa tarefa se torna ainda mais instável, mais desafiadora — e, muitas
vezes, angustiante.
Como lidar com essa crise de identidade?
Freud jamais prometeu um sujeito completo, perfeitamente resolvido. Pelo contrário: ele
mostrou que viver é aprender a lidar com a falta, com a incompletude, com os próprios
impasses. Nesse sentido, a psicanálise não entrega fórmulas prontas — ela propõe escuta,
reflexão, e a possibilidade de construir sentido mesmo no meio do caos.
Em uma cultura de respostas rápidas, filtros e autodiagnósticos, cultivar um espaço de
escuta interna é quase um ato de rebeldia. Sustentar um eixo próprio, mesmo que
imperfeito, é mais valioso do que se adaptar cegamente às exigências externas.
No final das contas a identidade não desapareceu, ela apenas se tornou mais disputada. O
verdadeiro desafio hoje não é se fixar em uma definição rígida de si, mas encontrar formas
singulares e consistentes de estar no mundo. Isso exige coragem, presença e, muitas
vezes, silêncio.
Em um tempo em que tudo pede velocidade, talvez o mais revolucionário seja desacelerar.
Olhar para dentro. E descobrir, com honestidade, o que ainda faz sentido sustentar, mesmo
que o mundo lá fora continue girando sem parar.
Shirley Jaires, Pós Graduada em em Gestão de Pessoas com ênfase em Liderança Organizacional,
Coaching e Carreira com ênfase em Consultoria e Pós Graduanda em Psicanálise Clínica.

